Olhai os Lírios do Campo – Trechos

“Eugênio temia que esse Deus que em vão a mãe o queria fazer amar. Quando à noite rezava o ‘Padre Nosso, que estais nos céus… ’ – ele imaginava um ser de forma humana mas terrível, misterioso e implacável. Era invisível, mas estava em toda a parte, até nos nossos pensamentos. A ideia do pecado, então, começou a perturbar Eugênio. Estudava as lições e portava-se bem na aula porque temia os castigos da professora. Não fumava não dizia nomes feios nem ‘fazia bandalheiras’ porque tinha medo dos castigos da mãe. Fugia dos maus pensamentos e não fazia má-criações nem às escondidas, porque Deus estava em todos os lugares e enxergava tudo. Um dia, enumerando a lista dos grandes pecados, alguém lhe disse: “Não amar os pais é pecado”. Então ele estava pecando! Por mais que se esforçasse não podia amar aquele pai que nunca levantava a mão para bater nele, que nem mesmo chegava a erguer a voz para o repreender.”

 

“Era setembro. Naquela manhã de domingo, sentado na soleira do portão do internato, Eugênio sentia como nunca as mudanças que se haviam operado no seu corpo e na sua vida, depois que ele completara quinze anos. Sim, não existia a menor dúvida: estava ficando homem. Agora se examinava com freqüência ao espelho – de longe, de perto, de soslaio – com fúria de analista obstinado. Achava-se feio e rude, isso o angustiava. Deus bem lhe podia ter dado outra fisionomia, já que não lhe dera riqueza. Rebentavam-lhe espinhas no rosto, no rosto, no pescoço, nas costas: era também primavera no seu pobre corpo de adolescente. O buço apontava forte, sombreando-lhe o lábio superior. Uma nuvem de estranheza e selvagem desconfiança lhe velava os olhos, que não conseguiam fixar-se por muito tempo no rosto das outras criaturas. Andavam quase sempre entrecerrados, eram torvos e davam àquelas feições uma expressão quase imbecil.”

 

“Se naquele instante – refletiu Eugênio – caísse na Terra um habitante de Marte, havia de ficar embasbacado ao verificar que num dia tão maravilhosamente belo e macio, de sol tão dourado, os homens em sua maioria estavam metidos em escritórios, oficinas, fábricas… E se perguntasse a qualquer um deles: “Homem, por que trabalhar com tanta fúria durante todas as horas do sol?” – ouviria esta resposta singular: “Pra ganhar a vida”. E no entanto a vida ali estava a se oferecer toda, numa gratuidade maravilhosa. Os homens viviam tão ofuscados por desejos ambiciosos que nem sequer davam por ela. Nem com todas as conquistas da inteligência tinham descoberto um meio de trabalhar menos e viver mais. Agitavam-se na terra e não se conheciam uns aos outros, não se amavam como deviam. A competição os transformava em inimigos. E, havia muitos séculos, tinham crucificado um profeta que se esforçara para lhes mostrar que eles eram irmãos, apenas e sempre irmãos.

Na memória de Eugênio soaram as palavras de Olívia: “Devemos ser um pouco como as cigarras”. Era estranho como ele já não se lembrava com precisão do som da voz dela… ”

 

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