Homem, substantivo, masculino, singular

Marco Antônio tornou-se gente no dia 12 de dezembro de 1937, às 13h05, quando nasceu.

Já nasceu sendo filho (de seus pais, naturalmente), branco, solteiro, franzino, brasileiro, careca. E corintiano, por imposição do seu avô, Teodoro Campos.

Tornou-se católico sem nem mesmo saber, no dia do seu batizado, quando completou um mês de vida. No ano de 1939, veio a ser irmão de seu irmãozinho Vitor Hugo, que nasceu prematuro. Aprendeu a ler em 1943 e, já alfabetizado, virou aluno da Escola Dom Pedro II. Com a condição de aluno, veio a de colega dos seus colegas de classe, cliente da cantina do Seu Raul e passageiro do ônibus escolar. Nos anos seguintes, viria a ser goleiro do time do ginásio, colecionador de caixas de fósforo vazias e dono de vários cachorros, todos eles vira-latas.

Dia a dia, Marco Antônio ia virando pré-adolescente, adolescente.

Descobriu estar apaixonado por Teresa, sua colega de classe, em 1951, mas só teve coragem de se declarar anos depois. Nunca foi impetuoso, ao contrário, era um rapaz muito prudente. Ficou noivo em 1958, quando já era universitário, e se comprometeu a casar tão logo arranjasse um emprego. Enquanto esteve comprometido,

Marco Antônio experimentava uma sensação meio indefinida de clausura e certa vez até chegou a confessar à moça que se sentia como um anel de brilhantes penhorado. Descontente com a informação, ela se recolheu em dúvidas. No mesmo dia em que fez o exame de direção e foi considerado motorista, Marco Antônio também veio a ser ex-noivo de Teresa, por causa de uma briga que os dois tiveram no carro. Passou uns meses deprimido. Percebeu estar recuperado ao conhecer Vânia de Oliveira Basto, num baile carnavalesco.

Logo após sua formatura, já engenheiro diplomado, Marco Antônio quis ser marido de Vânia e tornou-se funcionário da companhia elétrica, onde recebia um bom salário. No segundo ano de casamento, já era pai de um bebê do sexo masculino a quem ele e a esposa deram o nome de Rodolfo. Foi então que ele decidiu ser mutuário do Banco do Brasil, se transformando de inquilino em propietário.

Marco Antônio foi nomeado supervisor técnico da empresa em 1967. Nessa época, se dizia comunista, ainda que sem grandes convicções.

Foi em maio de 1968 que ele se tornou adúltero, baseado na desculpa “Vânia anda distante e fria”. Nunca soube se foi traído, embora vivesse desconfiado.

Quando ficou desempregado, durante todo o ano de 1970, se transformou num homem amargo, adjetivo que ia acompanhá-lo até morrer. Não sem razão, visto que desde então ele foi vítima de muitas agruras do destino, tais quais ser acusado de sonegador de impostos, ser diagnosticado como diabético e ser abandonado pela esposa.

As coisas chegaram a melhorar na década de 80, quando Marco Antônio, já aposentado, decidiu ser taxista, e foi avô de dois netos. Não se pode afirmar que ele

estivesse realizado, mas foi razoavelmente feliz durante algum tempo. Quis o destino que ele fosse ficando cada vez mais esquecido, com a idade, e cada vez mais solitário.

"Durante seu enterro, parentes comentaram: 'Foi um homem infeliz, coitado.' "

"Durante seu enterro, parentes comentaram: 'Foi um homem infeliz, coitado.' "

Marco Antônio sofreu seu terceiro e último enfarte numa noite chuvosa de fim de verão. Foi internado. No prontuário médico, lia-se: cardíaco, ex-fumante, hipertenso, desidratado. Passou três dias na condição de moribundo até seu corpo se transformar em cadáver, às 5h20 da manhã do dia 15 de setembro de 2009.

Antes de morrer, num momento de lucidez, ou de devaneio, o velho Marco Antônio sentiu a impressão de nunca ter passado de um substantivo, acompanhado ou não de adjetivo, verbo e complemento.

Durante seu enterro, parentes comentaram: “Foi um homem infeliz, coitado.”

Adriana Falcão

Li esse texto no jornal e gostei muito, por isso resolvi postá-lo. Além disso, ando sem tempo para editar meus rascunhos e colocá-los aqui. Mas garanto que estão muito bons os esboços, com dicas de informática, contos, brincadeiras, entre outros….

Boa leitura!

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2 comentários sobre “Homem, substantivo, masculino, singular

  1. Muito legal… Fui percebendo os substantivos e pensei “poxa, o cara é só um bando de rótulos!”
    Eu quero ser verbo, sempre em movimento, sempre em mudança – porque a vida… vive. E quem não é verbo, sobrevive!

    • Isso mesmo! Gostei de ver sua positividade.
      É triste vermos muitas e muitas pessoas que apenas vivem nesse mundo, sem ter o desejo de fazer algo diferente, algo que a motive a ser diferente, a ser alguém com metas!

      Creio que você tem sim muitos objetivos a conquistar e torço pra que eles sejam alcançados sempre!

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