Se a bota couber, use!

“Era a primeira neve do inverno: um dia empolgante para toda a criança, mas não para a maioria das professoras. Até então, eu conseguira me vestir sozinha para o recreio, mas hoje precisaria de ajuda. A Srta. Finlayson, minha professora no jardim de infância da Escola Princesa Elizabeth, perto de Hamilton, em Ontário, passou por muitos primeiros dias de neve em sua longa carreira, mas acho que ela talvez ainda se lembre daquele.

Consegui me enfiar nas calças de neve, de lã que pinicava. Mas lutei com o casaco, porque não cabia direito em mim. Tinha sido do meu irmão e me fez pensar porque tinha de usar as roupas feias dele. Pelo menos, o gorro e o cachecol combinando eram meus, e bem bonitos. Finalmente, chegou a hora de pedir ajuda à Srta Finlayson com as botas. Com sua voz calma e maternal, ela disse: “No fim do inverno, vocês todos serão capazes de calçar as botas sozinho.” Não percebi, na época, que essa era mais uma declaração de esperança do que de certeza.

Entreguei-lhe as botas e estendi o pé. Como a maioria das crianças, esperava que o adulto fizesse o serviço completo. Depois de muito rodar e empurrar, ela conseguiu enfiar a primeira bota no lugar e então, com um suspiro audível, trabalhou até calçar a segunda também.

Anunciei: “Estão com os pés trocados!” Com a graça que só a experiência dá, ela lutou para tirar as botas e passou pela triste tarefa de calçá-la outra vez. Então eu disse: “Sabe, essas botas não são minhas.” Ao puxar dos meus pés as botas transgressoras, ela ainda conseguiu parecer prestativa e interessada.

Assim que as tirou, eu disse: “As botas são do meu irmão. Minha mãe me obriga a usá-las e eu detesto!” Não sei como, por causa dos longos anos de prática, ela conseguiu agir como se eu não fosse uma menininha irritante. Empurrou e forçou, dessa vez com menos gentileza, e as botas foram devolvidas ao lugar certo nos meus pés. Com um grande suspiro de alívio, já antevendo o fim da luta, ela perguntou: “E agora, onde estão as luvas?”

Olhei-a bem nos olhos e disse: “Não queria perdê-las e enfiei dentro das botas.””

Trish Sinclair*

*A canadense Trish Sinclair publicou recentemente, por conta própria, uma coletânea de histórias da sua vida.

Li esse texto na revista Seleções do mês de novembro, achei ótimo e resolvi postar.

E aí, você teria tanta paciência assim?

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6 comentários sobre “Se a bota couber, use!

    • Hahaha, verdade!

      Nossa, ainda não comprou por aí? Não perca tempo, pois a cada edição são novos conhecimentos e emoções adquiridas o/

  1. “Sinceridade? sim” 2
    Sou bem paciente com crianças… ^-^ Mas confesso que já estaria como a professora, respirando fundo para não me irritar.

    “Voltei!!! \o/
    Com o tempo, me atualizo sobre o que você andou blogando, ok?!
    =*
    Saudades!”

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