Sete balas e um cadáver

Sete balas e um cadáver

(ilustrações de André Bernardino)

As mulheres entraram em suas casas e as crianças ficaram olhando pelas frestas das janelas quando ele chegou à cidade.

Big Green vinha com desejo de vingança. No ano passado, fora derrotado duas vezes seguidas por Billy, the Fish, nas semifinais de Paulistão City.

E seria uma vingança difícil. Billy era o bambambã da cidade. Estava rápido e ágil como ninguém. Seus revólveres disparavam tantas balas que mais pareciam metralhadoras.

Para piorar, Billy andava com um instinto cruel. Gostava de matar seus adversários com vários tiros. E, sádico, dançava depois de cada um deles. No meio da semana metera dez balas num desconhecido caubói que ousou desafiá-lo e até ficou cansado de tanto sapatear sobre o morto.

Mas os duelos são uma caixinha de surpresas.

Ou, para alguns, um caixão.

Sem se intimidar com a fama de Billy, the Fish, Big Green abriu as portas do Belmiro Saloon, dizendo: “Daqui pra frente, tudo vai ser diferente. Você vai aprender a ser gente. O seu orgulho não vale nada. Nada!”.

Os versos são de Roberto Carlos, mas ele os disse com voz de John Wayne.

Billy, the Fish, virou-se e os dois trocaram olhares tão gélidos que as cervejas do Belmiro Saloon congelaram.

Então, Billy, abrindo apenas o canto da boca, disse:

“Hoje comerei porco recheado com chumbo.”

“Pois eu comerei sashimi.”

“Sashimi?”, surpreendeu-se Billy. “Isso não é uma metáfora violenta. Nos diálogos de faroeste nossas metáforas têm que ser violentas. Você deveria dizer peixe frito ou algo assim.”

“Prefiro sashimi.”

“Não há japoneses nas histórias de faroeste.”

“Claro que há. Você nunca viu aquela série Kung Fu, com David Carradine?”

“Vi. Mas ele era chinês, não japonês.”

“Bah! Estamos perdendo tempo com estes diálogos inúteis.”

“Concordo”, disse Billy, the Fish, que merecia ser chamado de Billy, the Flash, pois rapidamente deu um salto para o lado e disparou dois tiros em Big Green.

O caubói alviverde caiu com os dois joelhos no chão. Estava ferido. Parecia pedir apenas um tiro de misericórdia.

Mas Billy não deu este tiro.

Em vez disso, falou: “Foi mais fácil do que eu pensava. Jack Tricolor e Tim Timão me deram mais trabalho”. E depois subiu em cima de uma mesa e pôs-se a dançar.

Este foi seu erro. Aquela dancinha deixou Big Green furioso, e a fúria pode ser uma arma decisiva num duelo. Pode ser melhor que punhos ou facas, que revólveres ou rifles.

Pois eis que Big Green ergueu-se, molhou seu Colt Robert e sua pistola 007 no sangue que brotava de seu peito e disparou: Bam! Bam! Bam!

Foi isso mesmo que você escutou. Ou melhor, leu. Big não acertou apenas um, mas três tiros certeiros. Três tiros certeiros no peito de Billy, The Fish.

O caubói caiçara estava ferido no coração e no orgulho. Ele, que sabia ser o melhor caubói de Paulistão City, não poderia ser vencido em seu próprio saloon.

Billy se levantou e, também com fúria, começou a disparar.

As balas zuniam nos ouvidos de Big, roçavam em suas roupas, mas não o atingiam. Foi quando Billy decidiu tirar de dentro de sua bota a pequena pistola Madson, calibre 1,58. E foi ela que alvejou, ou melhor, avermelhou, o ventre de Big Green.

“Quem ri por último ri melhor”, disse Billy, gargalhando de felicidade.

“Penso o contrário”, falou Big Green.

“O contrário?”

“Sim. Acho que quem chora por último chora mais.”

“Não entendi.”

Big não explicou nada. Em vez disso, disparou um tiro de longe. Um tiraço. Um tirambaço!

BANG!

3 a 4. Billy, the, Fish, caiu para não mais levantar.

Aquele que parecia invencível fora vencido em seu próprio saloon.

E aquele que há pouco dias parecia morto, soprou seu Colt Robert, subiu em seu cavalo e foi embora cantando “Daqui pra frente tudo vai ser diferente…”

Texto retirado originalmente de: Blog do Torero

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