Co-Responsabilidade Inevitável

Meses atrás na escola, tivemos um programa de Segurança no Trânsito. É um daqueles workshops cheio de apresentações do PowerPoint com estatísticas e informações que todo mundo já sabe, alguns vídeos impressionantes da campanha de segurança do Governo e algumas histórias de acidentes horripilantes cujo único objetivo é deixar os adolescentes em pânico, só pra que eles desistam de dirigir logo de uma vez.

Uma dessas histórias horripilantes foi de um grupo de quatro amigas de Sydney, que foram a uma festa de aniversário de um amigo. Combinaram que uma delas não beberia pra poder voltar dirigindo. Essa menina, porém, começou a beber no meio da festa. Emma, uma das outras garotas, viu aquilo e foi comentar com Sarah (a dona do carro), que lhe disse que não havia problema. Todavia, como Emma não ia beber de qualquer jeito, porque tinha um jogo importante no dia seguinte, resolveu ela mesma dirigir, por medida de segurança. Quando a festa estava acabando, os pais do aniversariante cuidaram pra que a maioria dos convidados tivessem sido buscados pelos pais ou tomado um táxi. Ao sobrarem umas poucas pessoas, eles se retiraram pra dormir. Os outros convidados, que não tinham como voltar para suas casas, ao verem as quatro amigas que iam embora de carro, começaram a pedir carona. Emma não gostou da idéia de acomodar mais pessoas dentro do pequeno veículo, sem que elas pudessem estar propriamente sentadas com o cinto de segurança, mas Sarah disse que ela deveria parar de se preocupar tanto. Pra não parecer idiota, Emma se calou. Duas outras garotas foram para o banco traseiro, e dois garotos foram no porta-malas do carro. Sendo cautelosa e a única pessoa sóbria do grupo, a motorista dirigiu dentro do limite de velocidade mas, numa curva, o peso do carro fez com que ele começasse a deslizar pelo pavimento molhado. Emma perdeu o controle do carro, que acabou batendo com a traseira num poste. Os dois meninos no porta-malas morreram na hora. As outras passageiras ficaram machucadas e Emma foi levada a julgamento pela morte dos dois rapazes. Suas ex-melhores amigas se voltaram contra ela e testemunharam a favor da acusação no Tribunal, culpando-a exclusivamente pelo acidente.

Isso tudo me fez pensar… De quem era a culpa, afinal? Só da motorista, que foi a única pessoa quetentou fazer o que era mais correto? Não, eu não acho. Pra mim, tanto os pais do aniversariante que não esperaram até todos irem embora, quanto aquela que deveria ter dirigido mas começou a beber ou a dona do carro que não estava nem aí pras normas de segurança ou ainda os meninos que resolveram pegar uma carona no porta-malas, são todos responsáveis. Afinal, uma coisa puxa a outra. Se aquela que não ia beber pra poder dirigir tivesse feito o que tinha combinado, Emma não teria se visto obrigada a dirigir um carro no qual ela nunca tinha pegado antes. Se os pais tivessem monitorado os adolescentes, não teriam deixado que todos os oito se amontoassem no veículo sem segurança, e o acidente nunca teria acontecido, porque não haveria excesso de peso. Se a dona do carro fosse mais responsável e tivesse ao menos dado ouvidos às preocupações de Emma, talvez a motorista teria encontrado maior coragem pra enfrentar a pressão dos amigos. Se os meninos não tivessem pressionado por uma carona, nem aceitado ir no porta-malas, ainda estariam vivos. É o princípio da Co-Responsabilidade Inevitável, efeito dominó, uma coisa que puxa a outra, a 3ª Lei de Newton – aquela que diz que pra toda ação há uma reação -, ou a crença de que “tudo o que vai, volta”. É só escolher o nome que você quer dar a isso.

Bem que o Augusto Cury já dizia, “o Princípio da Co-Responsabilidade Inevitável demonstra que as relações humanas são uma grande teia multifocal. Revela que ninguém é uma ilha física, psíquica e social dentro da humanidade. Todos somos influenciados pelos outros. Todos nossos atos, quer sejam conscientes ou inconscientes, quer sejam atitudes construtivas ou destrutivas, alteram os acontecimentos e o desenvolvimento da própria humanidade. Qualquer ser humano – intelectual ou iletrado, rico ou pobre, médico ou paciente, ativista ou alienado – é afetado pela sociedade e, por sua vez, interfere nas conquistas e perdas da própria sociedade através de seus comportamentos (…). Os mínimos comportamentos podem interferir em grandes reações na história. O espirro de um norte-americano pode afetar as reações das pessoas no Oriente Médio. Uma atitude de um europeu, por mínima que seja, pode interferir no tempo e nas ações da China (…). Somos todos todos responsáveis inevitavelmente, em maior ou menor proporção, pela prevenção do terrorismo, da violência social, da fome mundial”.

No fim das contas, Emma foi julgada inocente, exatamente por não ser mais responsável pelas mortes do que qualquer um dos outros envolvidos na situação. Todavia, hoje ela não pratica mais nenhum dos esportes que amava tanto, largou os estudos – e olha que ela era uma aluna brilhante -, e enfrenta uma grave depressão. Uma noite mudou a vida dela. Suas escolhas (que no momento até pareceram ser corretas) e a de outras pessoas afetaram seu futuro drasticamente. Embora legalmente livre, ela agora é presa no único lugar que deveria ser livre: seu interior.

E isso serve pra lembrar que nossas decisões mais simples afetam profundamente não apenas a nós mesmos, mas também a muitas e muitas pessoas. Portanto, o bom não é pensar apenas duas vezes, mas umas dez, pra falar a verdade, antes de fazer qualquer coisa. Afinal, nas palavras do Dr. Cury, “a humanidade é uma família vivendo numa complexa teia. Somos uma úncia espécie. Deveríamos amá-la e cuidar dela mutuamente, caso contrário não sobreviveremos”.

Brenda Nepomuceno

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