“Mais Cinco Minutinhos”

Depois de mais um dia de trabalho, de pé eu estava, envolvida pela multidão que se dissipava na pressa do horário de pico. Em uma das principais estações de trem da cidade, todos corriam de volta para seus lares. Eu espirrava, pois ainda me recuperava de uma forte gripe. Mal podia esperar para estar de volta à minha saúde completa, pensava enquanto olhava para o relógio. O trem estava atrasado. Ainda bem, caso contrário eu não teria conseguido chegar a tempo.

“O próximo trem com destino a Sydenham está atrasado e é esperado em um minuto.”

Naqueles sessenta segundos, o número de pessoas na plataforma – que já era maior do que o normal devido às circunstâncias – crescia em tamanho e  irritação. Foram apenas alguns minutos a mais, raciocinei. E se eu conhecia bem aquele povo, entrariam naquele trem, cuja luz eu já via despontar lá no final do túnel, como uma mulher em trabalho de parto entra em um hospital. Dei um passo para trás. A noite mal dormida afetava o meu cérebro, mas não totalmente. Restava lucidez o bastante para saber que a decisão mais sábia seria esperar pelo próximo comboio, dali a apenas outros cinco minutos. Tomava a decisão de permanecer ali quando as portas do atrasado se abriram, mal deixando qualquer espaço para os novos passageiros subirem nele.

Cinco minutos depois, refletia na escolha acertada que fizera. O das 17:35h viera vazio, com assentos para todos, e nem precisei me esgueirar para achar um. Cinco minutos de espera, e eu já colhia os benefícios. Perguntava-me quais os motivos tão urgentes que levaram os outros a ir de pé, apertados contra a porta, até sua estação de desembarque. Não valia a pena. Talvez alguns deles já estavam atrasados para compromissos que não poderiam perder, então correram. Mas a maioria, eu tinha certeza, correu simplesmente pelo hábito do imediatismo. Este, analisando bem, só não me afeta em situações corriqueiras do dia-a-dia… como esta.

Então por que, eu me perguntava, eu não espero mais pelos benefícios vindouros? Por que é que não consigo me satisfazer de pé com a perspectiva de um assento só para mim, quando vier a hora do meu trem chegar? É claro que nas situações não-práticas da vida a espera não é tão curta. Mas mesmo assim, se sei que esperando pelo momento certo posso desfrutar mais das coisas boas, porque vivo querendo apressar tudo, em todas as áreas?

De agora em diante a vida é só pelo olho-mágico dos “mais cinco minutinhos”: pagando um preço menor agora, para poder usufruir melhor lá na frente, raciocinei, colocando os pés para cima no assento ao lado, enquanto abria o jornal para ler até finalmente chegar na minha estação de desembarque.

Brenda Nepomuceno

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