Música ao longe: a gênese de um amor…

Lembram do projeto Resenha à 2? Pois bem, a  Polly Silva fez a resenha dela para o livro “Música ao longe”, que eu tinha resenhado tempos atrás. Vale ressaltar que a forma dela de explorar os detalhes do texto é muito interessante, extraindo informações que passam batido mesmo ao leitor mais atento. Acompanhe abaixo a resenha que ela fez para o livro e tire suas próprias conclusões:

Antes de mais nada, devo dizer: decidi fazer uma resenha um pouco diferente das outras que fiz no blog. Existem pequenas revelações do enredo – nada que seja muito revelador. Aviso isso porque há quem não goste de qualquer coisa que cheire à  spoiler.

A solidão e o cotidiano podem ser sufocantes. Menos para uma sonhadora feito a Clarissa, protagonista do romance Música ao Longe.

Escrito em 1935 a fim  de concorrer ao Prêmio Machado de Assis (ganhando, vale salientar), este livro é muito saboroso (adoro uma sinestesia!). Em suas 240 páginas ¹, Érico Veríssimo soube mostrar uma grande versatilidade: emprestou as suas palavras à voz de uma garota de 16 anos, Clarissa; aos seus pais (certamente com o dobro da idade desta jovem), ao jovem rebelde com causa Vasco e até mesmo à personagens secundários – com suas peculiaridades -.

Veríssimo usa  uma técnica de narração sofisticada: a maior parte do romance, Clarissa narra os acontecimentos por meio de seu diário ou de suas divagações. Contudo, há também um narrador em terceira pessoa. Esse narrador mergulha no íntimo dos demais personagens, dando- lhes, às vezes, a oportunidade de cada um contar a sua estória. Apesar desta densidade psicológica, a fluidez com que o livro foi escrito nos dá uma rapidez de leitura incrível. Em outras palavras: simplicidade misturada a algo profundo. Adoro isso!

O enredo do romance é ambientado na cidadezinha Jacarecanga, onde Clarissa é professora de uma escola municipal. Sua vivacidade e olhar observador misturam- se a uma ingenuidade que pode ser atribuída a sua criação. João de Deus, seu pai, é um pecuarista falido, cheio de um orgulho decadente. O pai, Olivério, fora respeitado por todos da cidade. E ele, como filho, espera ter o mesmo prestígio – que não tem.  D. Clemência, esposa submissa e dedicada, reprimia suas opiniões e via a inércia do marido sem lhe dizer palavra.

João de Deus carrega  pontos positivos e negativos do patriarcalismo. O apego à família misturado a uma visão arcaica do papel feminino na sociedade e do trabalho árduo mas desprestigiado. Tudo isso acaba respingando na personalidade de Clarissa. Tímida, muitas vezes arrepende- se por não ter nascido homem. Acha que não deve verbalizar suas opiniões e que tem obrigação de submeter as vontades do pai. A relação com a mãe beira a uma frieza não só pela natureza de D. Clemência como também pelo estilo de vida que lhes eram imposto.

O diário em que escreve é o seu refúgio. Sua família está falida. Financeiramente e emocionalmente. Um tio alcoólatra, outro viciado em cocaína; uma tia que não se casa (noiva há mais de dez anos), um primo rude e mal criado e um pai sem eira nem beira. O único senão para esse quadro desolador é a tia bem velhinha, Zezé. No diário, anota o seu dia- a – dia monótono e triste. Caso não fosse a sua rica imaginação, suas leituras… talvez fosse mais um personagem deprimido na Literatura….

De suas leituras, destacam- se as poesias de Paulo Madrigal (fictício, por sinal). Dentre elas,  há uma que fala do amor que está por vir… Como uma música ao longe…

E lá se vai Clarissa a sonhar com o amor. O amor dos romances açucarados que lia…

A protagonista de Música ao longe tem uma profunda saudade da infância. Os amigos Lia e Léa, Conca, Xexé,  o primo mal criado, Vasco,  e Gustavo Gamba colorem de lembranças boas – e até ruins-  a vida da moça Clarissa. Vasco é um personagem cheio de faces e mistérios. Exceto Vasco e Gustavo, os demais personagens citados tem um papel secundário na história, bem como a figura do sabichão Seu Leocádio (amigo da família de Clarissa) ou o noivo da tia, Pio Pinto, entre outros.

O autor de Música ao Longe emprega uma linguagem simples, beirando ao coloquial. Consequentemente, o livro é fluido (não no sentido de inconstância, mas sim de leveza) como uma boa música suave. Isso faz deste livro coeso desde a sua proposta (o nascimento de um amor) até a própria escrita. Vale lembrar as recorrentes mortes na história, misturadas a um ritmo pulsante de um querer viver da Clarissa. Vida e morte. Início e fim.

Bom livro. Recomendo a leitura!

¹ Editora Globo, 1978.

Polly Silva

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2 comentários sobre “Música ao longe: a gênese de um amor…

  1. Extasiada e com uma vontade incomparavel de ler o livro. Quero ressaltar que sua “resenha” está ótimo, melhor que as demais que eu já havia lido!!!

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