Entrevista com Hunger United

A música underground brasileira  sempre teve bons nomes, e justamente por ser uma cena “under” dificilmente chegava ao ouvido da galera. Porém isso mudou com a internet, onde os artistas encontraram um ótimo espaço para divulgar seus trabalhos. E um dos estilos que tem aproveitado esse recurso é o rock, nas suas infinitas vertentes.

Dentro dele existe uma veia que tem ganho uma divulgação interessante na rede, e consequentemente obtido resultados. Esse é o hardcore feito em São Paulo. Através de projetos em apoio à música independente, como o Trama Virtual,  e até mesmo pelo esforço das bandas, a cena tem ganho destaque e chegado em vários lugares e países distantes, o que tem sido muito bom. E uma das mais proeminentes  dessa nova safra é a Hunger United, banda que em pouco mais de dois anos na ativa já rendeu ótimos shows e elogios da crítica especializada.

E nessa oportunidade entrevistamos Fernando, vocalista da banda. Confesso que essa foi uma das entrevistas mais interessantes do blog até aqui, pois as respostas refletiram bem as ideias fixas da banda. Sem mais delongas, curta a entrevista!

 1. Como é manter uma banda de hardcore na atual cena paulista? Existe o incentivo e motivação necessários?

Cara, nossa motivação é a própria música, a mensagem, os shows. Soa brega, eu sei, meio clichezão até, mas é verdade. Aquele papo todo sobre ver alguém cantando uma música sua não ter preço é o incentivo em si. Até porque se as bandas da nossa turma forem se apoiar em dinheiro ou qualquer forma de incentivo externo ao movimento, então tá todo mundo fu@#$%! Sobre a cena paulista, sinceramente? Enfraquecidíssima. A gente tocou em alguns lugares muito menores ano passado e começo desse ano e, de verdade, essa galera tem feito acontecer. Posso citar como destaques Santos e Curitiba, duas cidades que nos mostraram um bom gosto incrível e principalmente muito respeito. A preocupação com a qualidade, a galera comparecendo, os eventos estruturados de forma e preços justos. Não que isso não aconteça aqui em SP, mas o quesito “galera comparecendo” não tá nota 10 não. Parece que como tudo aqui é um pouco mais “acessível” a galera só quer saber de eventos grandes, bandas grandes e as que estão começando são muito boas apenas pro mp3/Ipod. Não sei se é culpa do movimento de alguns anos atrás que desvirtuou a coisa toda e espantou todo mundo, de quem faz os eventos que não os tem montado direito ou simplesmente das bandas que realmente não são boas o bastante, mas vejo de forma otimista e já percebe-se uma mudança de um ou dois anos pra cá. Conta aí a quantidade de bandas que voltaram a se formar nesse período e acho que vamos poder chegar a alguma conclusão.


2.
SOPA, PIPA e ACTA, qual a opinião de vocês a respeito dessas leis? Vocês acreditam que elas escondem objetivos maiores, como impedir a distribuição livre de informação?

A distribuição de livre informação é combatida pelos governos desde sempre. Isso não é novidade. A minha surpresa foi isso ter ocorrido de forma tão explícita, mesmo que encapada de defesa do direito autoral. Muito suspeito um deputado republicano dar sua cara a tapa de forma tão imprudente e contrariando a forma de atuação geralmente exercida por estes (lembra das armas químicas iraquianas?). Não sou perito político pra poder analisar uma manobra política dessas… Há quem diga que é uma jogada democrata, afinal o Obama, em ano de eleição, vetando um ato arbitrário desses melhoraria sua imagem com o povo. E há quem acredite tratar-se de apenas mais um exemplo do imperialismo deles, valendo-se de sua própria constituição para regulamentar sites do mundo todo.

O fato é que dizem que isso tudo chegou ao fim, mas o Megaupload continua fora do ar (aliás, dê uma visitada no site e veja o belíssimo aviso do FBI) e eu que sou um baixador assíduo de arquivos de diversos tipos tenho encontrado dificuldade pra encontrar alguns materiais e, principalmente, será coincidência?

Vi muitos Guy Fawkes aqui e ali, e achei bacana uma minoria do povo se mobilizar diante de algo que não concorda, mas é uma pena que a imensa maioria sequer faz ideia de que isso tudo exista e de que existem muitas outras coisas que mereciam a mesma mobilização, mas apenas a “restrição à internet” foi capaz de causar alguma forma de repúdio.

3. Toda banda tem suas inspirações, mas nem sempre essas são do mesmo estilo da banda. Vocês possuem alguma influência externa, de algum artista ou músico fora da cena hardcore?

Sim, muita coisa. Cada um da banda tem suas preferências, das mais populares posso citar: Foo Fighters pra mim, Metallica pro Cauê, Red Hot Chilli Peppers pro Marcelo, Slayer pro Lucas e o Japonês, bom o Japonês acho que só curte se for do underground mesmo! [risos]
Tem muita coisa não tão famosa também, mas se eu listar aqui é capaz desta resposta ser ainda maior que as anteriores! [risos]

hunger

4. Desde o começo as mudanças na banda foram profundas. Pode falar um pouco sobre elas?

Até agora, a gente tem tomado essas decisões focados no desempenho da banda ao vivo. O EP foi gravado comigo na guitarra e o Lucas na bateria. Chegamos a abrir o show do A Wilhelm Scream com essa formação, mas a gente sentiu falta de um vocal um pouco mais móvel. Como o Lucas já estava na vibe de tocar guitarra e achamos que seria muito interessante poder contar com o Cauê que, pra mim, é um dos melhores bateristas. Então não pensamos duas vezes, mesmo sendo uma decisão difícil por influir diretamente em como a banda vai soar e como os próximos sons serão.

5. A música “Standing For” fala sobre os tempos brilhantes, uma volta ao verdadeiro, o real. Vocês se consideram saudosistas, de alguma forma?


Saudosistas não, até porque não temos nem idade pra isso, eu tenho 24 anos e sou o mais velho da banda. Na realidade, a música “Standing For” fala exatamente sobre o tema da primeira pergunta. Fazer acontecer pelas próprias mãos. As rádios extinguiram as guitarras de suas programações, ficar famoso, bonito e desejado é o objetivo, a qualidade da composição e da mensagem já não importa pra muitos. A gente olha pro passado e vê que o começo do nosso movimento era baseado na contracultura, no oposicionismo… E sim, passaram-se 40 anos e tudo mudou, mas ainda acreditamos que questionar, criticar acima de tudo a si mesmo, seja o coração do punk rock / hardcore.

6. Ano passado vocês lançaram o EP, tanto física como virtualmente. A repercussão foi muito boa. Quais os planos para 2012? Coisa nova pintando?

Surpreendentemente boa. A gente investiu o que tinha na época tentando fazer o melhor possível e, agora, é muito legal ver gente daqui e de outros países ouvindo nosso som, ter os caras que a gente cresceu ouvindo elogiando a banda e sendo nossos amigos… Esse tipo de coisa renova as energias. E sem dúvida esse ano a gente solta material novo… A ideia é seguir a mesma linha de som porque é o que a gente gosta de fato e sem dúvida nossa maior característica que é misturar os elementos do old e do new vai vir mais forte ainda. Alguns sons já estão engatilhados e, sinceramente, estou muito empolgado com eles, pois apesar de serem mais trabalhados, estão mais “soco na cara” do que antes.

7. Por falar em repercussão, como é ver tantas entrevistas e shows acontecendo dessa maneira? Vocês tem ideia do alcance que o som da banda tem?

É praticamente impossível saber até onde a música pode chegar, já tocamos na maior webradio do Canadá chamada PunkRadioCast, já tivemos respostas positivas do Japão, América do Sul, Europa e até de alguns músicos que a gente admira como o Steven Rawles (Belvedere / TIAS). A gente fica feliz de ver tudo isso acontecendo, mas sem dúvida, no momento o que a gente quer é que mais pessoas aqui no BR conheçam nossas músicas. Portanto todas as oportunidades são muito bem vindas e estaremos sempre disponíveis pra responder/tocar onde nos quiserem.

8. Sabendo dessa responsa, a preocupação com o que a banda apresenta ao público (com relação a ideais e qualidade) aumenta?

A gente se cobra muito pra que soe natural, mas que também soe profissional. Afinal, depois dessa boa resposta que a gente tem tido, é nosso dever nos preocuparmos em melhorar sempre. Uma das coisas que mais me fazer gostar do punk / hc é que tudo às vezes soa muito simples, mas quem faz esse tipo de música sabe que não é nem um pouco fácil. Portanto a gente sempre vai focar em músicas fortes e na energia dos shows, porque é isso que a gente mais gosta.

9. Quais bandas co-irmãs que vocês indicam para quem está lendo essa entrevista?

São muitas! É difícil não cometer injustiça ao deixar alguns nomes de fora, mas pelo contato no dia a dia e nos shows posso citar: Bullet Bane, Plastic Fire, H.E.R.O, Pense, Dance of Days, Iodo, Chuva Negra, End of Pipe, Fallover, e sem dúvida muitas outras que vou me arrepender de não ter dito depois de terminar essa resposta.

10. Acreditam que o mundo acaba em 2012?

Meu amigo, o mundo já acabou há muito tempo!
Toda civilização tem sua ascensão, auge e queda… o difícil é saber em que estágio a gente está!

11. A “parceiragem” que muita gente prega na cena underground é verdadeira?

É e não é. Tem uns que virão irmãos muito rápido e tem outros que são uns grandessíssimos fdps! Mas a gente se atém aos irmãos porque é assim que a gente fica mais forte e dos outros um dia a vida cuida!

12. Existe a possibilidade de cantarem em português algum dia?

A gente não se proíbe de nada. Escolhemos o Inglês por quê até agora é como tem funcionado melhor. Muita gente pede, e a gente considera sim… Quem sabe um dia desses não pinta um som em português pra gente ver no que dá.

13. Deixem uma mensagem pra galera.

Está nas suas mãos e faça o que é certo!
Essas duas frases se aplicam a tudo nas nossas vidas, famílias, relacionamentos, profissões, músicas, etc. Muitas vezes a gente reclama que nada dá certo sem antes olharmos pro nosso próprio umbigo e nos perguntarmos: “Será que não está escapando entre os meus dedos?” ou “será que isso realmente é o certo a se fazer?!”.
Pense!

Anúncios

5 comentários sobre “Entrevista com Hunger United

  1. ¿Qué SOPA, PIPA, ACTA o qué niño muerto?
    Opino que debería haber libertad total y democracia real y total para usuarios buenos de internet,
    a la vez que los músicos y artistas deberían poder seguir dedicandose a eso y seguir cobrando correcta y honradamente.
    Megaupload se cayó por su propio peso porque el que la creó lo hizo con afán de lucro y fines capitalistas.El tío ese resultó que era un capitalista como las clases más conservadoras.
    Pero no son los únicos: SGAE también está siendo procesada por corrupción.
    Seguro que los que crearon la ley SOPA también caerá.
    Si no has entendido algo, escribe.

    • Sin duda, todos los artistas tienen el derecho a cobrar la cantidad que consideren pertinente para su trabajo. Pero creo que un país no puede establecer leyes que interfieren con los derechos de expresión y comunicación alrededor del mundo. La Internet es internacional y debería haber una ley o conjunto de leyes para satisfacer los diferentes intereses de los miembros de este medio, debido a que el intercambio de archivos jamás será eliminado por completo. La democracia en Internet es la solución.

      • El que ha firmado como Hunger United ¿eres el mismo que el grupo de música?
        la verdad es que el nombre me suena pero si busco alguna canción a lo mejor la reconozco
        Saludos a todos desde España.
        Por favor busquen “Jueves” de “La Oreja de Van Gogh”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s