Chaplin e a imagem do atraso

Se prestarmos atenção a cada fragmento da história ocidental, notaremos de pronto que o homem sempre buscou traçar roteiros que o permitissem evoluir. Das grandes navegações ao processo econômico que culminou no que chamamos de globalização, tudo sempre tendeu a levar a jornada humana a patamares cada vez mais elevados no tocante à cultura, à ciência e à tecnologia. Talvez essa ideia nos pareça eurocêntrica e preconceituosa demais, mas não é. No fundo, tudo o que o homem do ocidente almejou foi o progresso, ainda que movido por estranhas fomes de poder.

A chegada do século XX foi um claro exemplo disso. As décadas que antecederam uma das mais otimistas eras da história foram marcadas por invenções fantásticas, como o telefone e o avião; teorias geniais, como a teoria atômica de Dalton e os estudos de Darwin sobre a seleção natural; e pensamentos que desencadeariam uma série de revoluções sócio-econômicas contra o sistema que prendia pobres operários às garras de um capitalismo selvagem.

O homem parecia estar com a faca e o queijo nas mãos. Todos os pontos pareciam querer se convergir em um belo final feliz. Olhando para frente, o ocidente enxergava seu destino triunfal: o desenvolvimento.

E o ano de 1900 chegou cheio de pompa. Os anos que o sucederam, também. O cinema, as luzes dos grandes centros urbanos, o rádio, os automóveis e bondes, a moda sensual à la Greta Garbo… Cada novidade ia colorindo aos poucos as pupilas de toda gente.

Em meio a tanta novidade e esperança, nem todo mundo conseguia enxergar um lastimável entrave que, sutilmente, levava o mundo a um destino oposto ao planejado. Sim, estamos falando da guerra. Aquela que poucos conheciam a fundo; aquela que a humanidade inteira era obrigada a engolir, sem medo de engasgar.

Sucessivas batalhas por territórios e disputas neocoloniais não faziam o menor sentido ao longo de um tempo pautado na vontade de empurrar o mundo para frente. Chaplin percebeu isso. Ele sabia que optar pela guerra para obter um crescimento que só a paz poderia nos conceber era um pensamento débil e torpe. Por isso, em vez de se dedicar à construção de qualquer texto dramático para mostrar o rumo que a humanidade tomava, preferiu recorrer à comédia, sua maior especialidade. Claro! Nada melhor do que a comédia para expressar o quão ridícula poderia ser a guerra.

Em O Grande Ditador, dirigido e protagonizado pelo baixinho mais popular do cinema mudo, Chaplin resolveu dar voz aos personagens pela primeira vez, como se quisesse acabar com o silêncio de um mundo que não agüentava mais os percalços da destruição. No decorrer do enredo, indivíduos que se odeiam com base em preconceitos étnicos quase chegam a se confundir e, a ingenuidade e pureza de um simples barbeiro trás à tona a mais sensata lógica humana do filme: todo mundo é igual.

Chaplin queria apontar a guerra como sinônimo de atraso… Como a mais genuína imagem da imbecilidade. E conseguiu. A inteligente sátira, que descaradamente, faz o mundo lamentar a existência do nazi-fascismo e rir de seus excessos, traz lições que vão além de qualquer cartilha que pregue a moral e o bom êxito. Com muita graça e bom humor, o eterno Carlitos foi capaz de provar em mais uma de suas obras primas, que a ditadura, a discriminação e a luta armada formam o triângulo perfeito para a ascensão do mais doentio retrocesso social.

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7 comentários sobre “Chaplin e a imagem do atraso

  1. I like that title
    “Chaplin e a imagen do atraso”
    Other languages:
    “Chaplin es la imagen del pasado”
    “Chaplin is the image of the past”
    “Chaplin és la imatge del passat”
    “Chaplin est l’image du passé”
    “Chaplin ist das Bild der Vergangenheit”
    “Chaplin è l’immagine del passato”

    • Es un bon titol, especialment sobre lo que parla, es molt trist que el capitalisme va traure conseqüents que no son bones.

  2. It’s very interesting what this writer speaks about the cursing which brought the capitalism at the beginning of XX century, may the riches ones didn’t think on the consequences that would come to this world.

    • Estoy de acuerdo, Antonio, el capitalismo, así como el feudalismo, el semifeudalismo, el nacionalsocialismo y el nacionalsindicalismo y otros sistemas similares cometieron errores y ahora están pagando por ello. Mira como están las cosas en España. Yo ansío un sistema totalmente democrático, libre, horizontal y con total facilidad de distinguir entre el bien y el mal sin necesidad de ningún superior. Gracias Chaplin por abrirnos los ojos y gracias Livia por colgar este texto.
      Recuerdos a Danilo, Adriana y Brenda.
      Espero que mejore el estado de todos nuestros países.

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