Seara Vermelha

Eis que terminei meu primeiro livro de Jorge Amado, algo que devia ter feito antes, bem antes. Pela importância dele como autor, sendo um dos principais romancistas brasileiros, achei estranho que eu não tivesse degustado nenhum dos seus trabalhos até então, o que instigou minha curiosidade e fez esse trabalho ser uma das minhas escolhas para leituras posteriores.

Como eu já estou habituado com a literatura brasileira, acabei gostando do livro logo de cara. A maneira que Jorge Amado escreve é bem abrasileirada, trazendo em suas linhas trejeitos e características do nordestino. Lembro que o livro retrata as mazelas daquela povo, que tanto sofre. Logo no início vemos a definição de alguns tipos conhecidos dos sertanejos, como as crianças nuas e barrigudas.

Já a trama se desenvolve de maneira singular. A história tem muitos detalhes, mas Jorge pouco se atém aos detalhes, exceto quando a situação o exige, como por exemplo na hora em que o trabalho dos médicos na zona de migração é narrado.

A história começa narrando a vida na fazenda de Aureliano, um daqueles fazendeiros mandatários, que trata seus empregados à duras condições e que pouco visita suas terras, já que tem outros afazeres na capital. Na sua ausência o sítio tem como responsável o capataz Artur, homem bom, mas que não é bem visto pelos empregados, só por uma parcela. É algo entendível, já que as pessoas tem o hábito de direcionar o foco para quem está em cima quando estão sofrendo. Isso também ocorre porque ele tem pulso firme, e muitas vezes age desonestamente nas negociações, além de bater de frente com os colonos.

O trabalho dentro da fazenda é pesado, e tudo o que as pessoas plantam ali é de propriedade da casa. Quando você precisa de algum alimento ou de uma pinga, precisa ir comprar no armazém do sítio, mantido com o que é plantado ali e cuidado por Artur. Esse é um cenário que era bem conhecido por aquelas bandas até algumas décadas atrás. Ainda bem que as coisas melhoraram.

Nas primeiras páginas do livro nos deparamos com os preparativos para um casamento. Aparentemente a filha de um dos empregados irá casar, o que anima a todos, já que festas não são frequentes naquele lugar. Uma das coisas que movimenta as páginas a seguir é a possível presença do capataz Artur, que divide os empregados. Aqueles que não gostam dele duvidam e praguejam, enquanto os neutros vem com indiferença isso, mas não sem dar ‘pitaco’.

Chegado o dia da festa, chega um telegrama para Artur, se não me engano do dono da fazenda. No comunicado ele é avisado que o sítio será vendido, e que as contas de cada empregado junto ao armazém deverão ser quitadas e os mesmos despedidos, sem direitos. Ele fica muito entristecido com isso, quase a ponto de não ir a festa, mas lá é a melhor ocasião para dar tal aviso, já que todos estarão reunidos. Cabisbaixo, ele vai para a festa, portando a má-notícia.

Quando os colonos são avisados ocorre um clima de comoção geral. Para onde irão todos, já que não possuem contatos ou amigos fora da fazenda? Todos se abatem, e alguns prometem vingança. Alguns trazem ela a cabo. Mais precisamente Gregório, que não ia com a cara do capataz. Ele acerta-lhe um tiro no ombro, mas não chega a mata-lo.

Nesse momento o prólogo do livro termina. As famílias se dispersam e começa aí uma grande luta pela vida. Uma coisa que achei interessante nesse início do livro é a disposição de inúmeros personagens, que trazem diversas personalidades e temperamentos. Vemos crianças e  uma louca, além dos personagens principais atuando de maneira importante na trama. Bela característica de Jorge.

A partir do Livro I (li em uma versão única, não sei se existem versões separadas) é que as coisas se desenvolvem pra valer. O foco da história passa a ser a família de Juncundina e Jerônimo. O objetivo deles, depois de despedidos da fazenda, é tentar a vida em São Paulo. Isso mesmo, São Paulo. Agora faça as contas: se o livro se passa na Bahia, e as pessoas planejam ir para São Paulo, como farão? Te respondo: a ideia é ir de barco até uma cidade e de lá pegar o trem para São Paulo. Porém, até chegarem nessa cidade portuária existe um longo percurso, que não pode ser feito de outra maneira que não seja a pé, devido tanto às condições da família quanto à disponibilidade de transporte.

Aí, meu amigo, a história se torna uma tristeza sem fim. Porque a grande família, vagando pelo sertão, se encontra com os mais diversos apuros. Carcarás vorazes, falta de água, sol escaldante, a penúria que aflige de maneira mortífera os pequenos, os acessos de loucura de Zefa, a louca da família, entre outras coisas. Se você quer ler o livro e não deseja saber o que ocorre de maneira aprofundada, cuidado. Daqui adiante, spoiler¹ na certa.

Nessa viagem ocorrem muitas mortes na família, inclusive das crianças, infelizmente. Só sobram os patriarcas, e dois filhos, um casal. Um dos filhos ficou numa das fazendas que haviam no trajeto, junto de sua prima, já que se gostavam. A louca se perdeu no mato, e depois terá presença forte na história. Com essas poucas peças a família chega na cidade aonde sai o barco para a cidade de onde eles tomarão o trem. Lá existem outros milhares de retirados, que fazem da cidade um caos de pobreza e miséria. Aliás, esses fatores se acentuam durante a posterior viagem de barco, que por vezes me deixou mal quando eu a lia, tamanha miséria.

[continua…]

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2 comentários sobre “Seara Vermelha

  1. I didn’t remember Jorge Amado.
    Thank you for the information. I recomend you some writers:
    Miguel Hernández, Antonio Machado, Isabel Allende, Joan Fuster…

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