Uma razão às avessas

Entre as máximas de Voltaire,  está aquela que, para mim, representa o ápice do equilíbrio racional: “Posso não concordar com nenhuma palavra que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-la.”

Fruto de uma geração de pensadores guiados pelo livre uso de uma razão bombardeada por fanáticos dos mais variados calibres, o filósofo, também poeta, dramaturgo e romancista, procurava basear sua obra em pensamentos independentes de qualquer conceito prévio que pudesse esbarrar em suas ideias.

Assim como o francês, outros intelectuais, conscientes de que a tolerância e o respeito deveriam andar juntos para “a felicidade geral das nações”, viam na análise ponderada de credos e modos de vida, um caminho de luz e sabedoria.

Quase 300 anos depois da publicação da primeira obra de Voltaire, a mesma razão que desatou o nó do Antigo Regime no século XVIII e respingou ideais de liberdade no mundo inteiro tem ganho novas faces. A mais ridícula delas aparece sob a forma de preconceito.

Sobretudo, um grupo em especial me chama a atenção:  o de ateus que, assim como religiosos que subestimam o caráter dos alheios à fé, questionam a bagagem intelectual de teístas, contrapondo fé e razão de maneira tosca e grotesca .

É fato que o repúdio cego aos ateus é comum e pobre, como já mencionaram Eliane Brum e Dráuzio Varela (colunistas de quem gosto muito) em artigos publicados em grandes veículos de comunicação.  Mas, por outro lado, há um grande número de ateus que não hesita em atacar criacionistas, seja em sátiras superficiais e ofensivas nas mídias sociais,  seja em rodinhas de conversa entre amigos.

O mais engraçado é que a maioria deles justifica sua descrença em Deus em um discurso pautado na razão, mas se afasta de um dos princípios básicos do pensamento racional: a tolerância.

Sim, Voltaire deve estar se remoendo na cova. A propósito, duvido que algum filósofo iluminista, de Spinoza a Rousseau, estaria em paz consigo mesmo com essa situação.

Voltaire era cristão. Spinoza, uma espécie de panteísta. Diderot, ateu. Entretanto, cada qual no seu quadrado, nenhum dos três abria mão de pensar de forma coerente frente às ideias alheias, apesar das claras divergências entre a forma como encaravam a metafísica.

A Igreja matou milhões, a política está repleta de cristãos militantes, oportunistas ou não. Ok. Mas isso não deve justificar a insensatez de quem pretende combater a cegueira moral com a mesma moeda. O que é bom, a gente repassa, o que é ruim, a gente descarta. Isso é tão simples!

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Um comentário sobre “Uma razão às avessas

  1. Es cierto, no se debería combatir la ceguera moral con la misma moneda. Yo intento inculcar el mismo pensamiento de tolerancia, pero es tan complicado…
    I like that image. Where did you take (or find) it?
    Saludos desde España.

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