De repente, nas Profundezas do Bosque

Fábulas não são meu forte. Geralmente porque associo, precipitadamente, com histórias da carochinha, para crianças. Porém li um livro recentemente que me fez mudar de opinião, pelo menos no caso dessa obra. Apesar de ser do gênero das fábulas, o livro é classificado pelo próprio autor como “para todas as idades”. Assim como “A Revolução dos Bichos”, o livro foi feito para levar uma história dupla, uma espécie de conto para alguns, e relato histórico para outros.

Deixe eu me explicar. Livros como esse são aqueles que trazem uma ideologia principal vestida de maneira sutil. Quando se lê sem conhecimento das intenções do autor, você pensa estar lendo um livro comum, bonito e de “classificação livre”. Porém quando se busca as bases usadas para tal, você entende que o livro é uma crítica a alguém ou algo mais acima do que aquele que escreveu. Geralmente funciona assim. E nesse caso não foi diferente. Porém ficarei devendo a interpretação da história, porque não fui atrás desse fato. Falarei apenas das minhas impressões a respeito da história enquanto fábula, assimilando com o que já vi até aqui…

A julgar pela capa e título, o livro faz você logo imaginar um ambiente infantil, ou no mínimo imaginário, fabuloso. Ainda mais quando as primeiras palavras lidas remetem ao ambiente escolar. E o livro não sai desse âmbito até seu estranho final. A visão das crianças sobre os fatos narrados é interessante, porque, dependendo da idade do leitor, esse tipo de narrativa o faz voltar aos velhos tempos, naquela época em que as coisas pequenas tinham um valor imprescindível, e as adultos eram chatas. E o livro, qual a temática dele?

A história se passa num pequeno vilarejo que, por mais estranho que pareça, não tem animais. Esse fato não é recente, vem desde anos atrás, e as crianças dessa época não conhecem a real história que levou a isso. Aliás, para elas os animais são uma lenda, e daquelas que nem pode ser mencionada, porque seus pais as proíbem disso. É um daqueles fatos ____ que não se podem citar nem por brincadeira. E isso só gera ainda mais dúvidas na cabeça das crianças. Elas tentam citar a história quando estão perto de alguém que saiba algo (geralmente os adultos), mas são sempre cortados e tem suas dúvidas suprimidas, exceto quando bate aquele sentimento de saudade nos adultos, quando eles querem afogar as mágoas nos tempos antigos, quando tinham seus animais de estimação. Porém quando esse sentimento passa, as pessoas fecham suas bocas e deixam de revelar preciosos detalhes para os pequeninos.

E a vida segue nesse rumo. São narrados fatos que se passam na escola, onde a professora Emanuela tenta passar para eles histórias a respeito dos animais, dos sons que eles faziam e qual era a importância deles para as pessoas. Mas ela é taxada de louca, tanto pelos pais como por algumas crianças, que já foram infectadas com o vírus do seus pais. E não só eles, mas também outras pessoas que ainda relembram desses velhos tempos. Pessoas como o velho pescador Almon, que nutria saudades do seu antigo cão.

No meio disso tudo acontece um fato inusitado e de certa forma atemorizante. Um garoto chamado Nimi, que era conhecido pelos dentes de coelho (bem espaçados) e pelo nariz com corisa quase intermitente. Ele chegava na aula contando sonhos que tinha com animais durante a noite, influenciados principalmente pela professora que plantava isso na mente dos pequenos. Os outros habitualmente caçoavam dele, por pensarem como os pais. E esse é um fator interessante da história, já que damos de cara com um sonhador, figura característica a qual alguns de nós nos assemelhamos. E esse garoto, que era motivo de coça dos outros e nem ligava, acaba passando por uma transformação inesperada. Ele foi para o bosque do vilarejo, lugar considerado pelo povo daquele local como perigosíssimo, e ficou por lá durante três semanas. Depois de muito buscarem, eis que ele retorna para a vila, sujo e magricela, e com duas características novas: parou de falar e passou a relinchar. Isso mesmo, começou a rir parecido com os equinos, e isso o fez ser rejeitado pelos seus, vivendo pelas ruas como uma criança abandonada, o que de fato acabou se tornando. E isso chamou a atenção de duas crianças que estudavam e conviviam com ele: Maia e Mati.

O casal de crianças atenta para a mudança que ocorreu com Nimi, e devido a outros fatores relacionados, decidem investigar tudo isso. E aí que partem para o bosque, sim, o bosque proibido! E a experiência pelo qual eles passam é interessante, já que o autor desenvolve uma linha interessante depois desse ponto. Algo que gostei foi um dos últimos parágrafos do livro, que não poderei escrever aqui integralmente para não servir de spoiler pra você, futuro leitor da obra. Mas posso citar um trecho, que é:

“…o meu desejo de vingança ruirá e se soltará de mim como a pele seca de uma cobra, e nós poderemos trabalhar, amar, passear, cantar, brincar e conversar sem devorar e sem sermos devorados, e também sem debochar um do outro. (…) E não esqueçam. Até quando vocês crescerem e se tornarem pessoas adultas, e talvez também pais de seus filhos, não esqueçam. (…)”

Essa foi minha primeira obra do escritor israelense Amós Oz, e apesar de não ter decido da maneira como eu esperava, creio que lerei outras obras do mesmo. O interessante dele não é o prender de sua atenção, coisa que tenho vivido nos últimos meses, mas sim a maneira como a história se desenvolve, com calma e constância. Além do fato de serem usadas metáforas únicas e coesas. Tão bem desenvolvidas que ainda não consegui distinguir o que o autor tencionava que entendêssemos daquilo que as letras me mostraram. Difícil, quem sabe numa segunda leitura.

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