Música, status: violada

Antigamente eu achava que o mercado paralelo da música era o motivo por haver essa quebra no sentimentalismo que a envolvia. Antigamente esperávamos um CD sair com ansiedade, contando as semanas e meses. Havia fila para adquirir as novidades daquele artista que as pessoas tanto gostavam, existiam fã-clubes, os prêmios musicais tinham evidência. Enfim, tudo isso passou. Mas descobri que o culpado não foi o modelo de consumo ilegal da música – que se tornou de certa maneira o padrão de consumo da mesma na nossa geração – mas sim o formato da música.

Vamos voltar um pouco no tempo. Antes da popularização da internet, em meados da década de 90, existia um modelo de negócios envolvendo a música. Os artistas dependiam quase que exclusivamente da venda de material próprio e ingressos, e isso movimentava bilhões por ano. E devido a esse tipo de ambiente ao qual estavam inseridos, existiam alguns lugares-comuns nessa época. Um bom exemplo era o lançamento de CDs. Existia MUITA euforia ao se anunciar o lançamento de um novo trabalho; quando a crítica especializada ouvia a notícia, logo lançava seus chutes sobre o que poderia vir daquele material. Era sensacional acompanhar isso, ver como os top charts de venda chamavam a atenção, tal qual a tabela de um campeonato de futebol nos dias de hoje. Infelizmente não pude vivenciar essa fase, apenas o final dela, que desembocou numa mudança de hábitos que trouxe sim seus diferenciais positivos, mas que destruiu alguns aspectos da música como arte.

Hoje temos, por assim dizer, livre acesso a música. Com uma pesquisa rápida você consegue baixar algum CD de que goste sem gastar nada com isso. Mesmo para aqueles que optam por um consumo legal, pagando pelos downloads ou serviços de streaming, a música está acessível. Toda a música. Se você gosta de pagode ou de black metal sinfônico da Escandinávia, não importa, você vai encontrar o som dela pesquisando. Isso pode ser considerado bom, tendo em vista de que a arte tem que ser divulgada, que o bom é que todos a consumam, pois é elixir para a alma. O problema é que tal acessibilidade constitui um novo ambiente para a música. Não são se compra um CD com expectativa, mas se baixa tantos quanto puder. Ao invés de haver aquela espera, seguida pela compra e degustação, hoje existe o consumo exagerado. As vezes olho meu Rdio e percebo que descobri muitas bandas novas nos últimos meses, mas que apenas as consumi, não fui atrás de mais informações, letras, histórias, ideologias… Pode parecer bobagem, mas é como se a música tivesse sido profanada por nós, meros ouvintes.

Não existe mais o prazer de se ouvir música, mas sim o hábito da distração.

Talvez seja tudo uma grande confusão da minha mente, até porque conheço pessoas que ainda degustam música. Mas está cada vez mais difícil encontrá-las. Enquanto isso tenho buscado não apenas consumi-la, mas ater-se aos detalhes, riffs, solos, monossílabos, tudo que possa ser digno de atenção. Comprei recentemente alguns CDs antigos e passei pelo processo de gravá-los no computador. Como estavam a preço de banana (R$5) acabei fazendo a mesma coisa dita no post. Comprei vários e não ouvi nenhum inteiro. Idem para alguns DVDs. Mas creio que ainda posso me redimir. Tendo o iPod por perto posso colocar os álbuns por lá e ouvir num momento de distração. Ops, não era o que eu estava criticando agora mesmo? Triste fim deste nosso ciclo com a música…

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